Governo lança campanha antidepressão, mas acesso a remédio e consulta é limitado
25/09/2019

No SUS, pessoas com doenças mentais esperam meses por medicamentos e vaga com psiquiatra

Setembro amarelo caminha para o fim e com ele logo desaparecerão da agenda pública os temas depressão e suicídio. Antes que comece o outubro rosa, e a enxurrada de notícias chamando atenção para o câncer de mama, é bom reforçar o tamanho do buraco que envolve a saúde mental no país.

Há uma semana, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e a ministra Damares Alves (Mulher, Família e dos Direitos Humanos) lançaram campanha de valorização da vida e combate à depressão, que reforçou a necessidade de a pessoa ficar atenta aos sintomas da depressão e de buscar ajuda.

Ajuda aonde? Embora o SUS tenha a previsão de uma assistência integral às pessoas com transtornos mentais, por meio dos Caps (Centros de Atenção Psicossocial) e dos Raps (Rede de Atenção Psicossocial), na vida real esses serviços estão superlotados, com profissionais em número insuficiente e um crônico desabastecimento de remédios.
Apenas no caso da depressão, o salto na demanda impressiona. Entre 2015 e 2018, o SUS registrou aumento de 52% no atendimentos ambulatorial e de internação relacionados à depressão (de 79.654 para 121.341). Na faixa de 15 a 29 anos, o aumento foi de 115% no mesmo período (12.698 para 27.363).

Ainda assim, há muita gente desassistida. Recentemente, o Diário do Nordeste relatou o drama das pessoas que passavam a madrugada na fila para conseguir uma senha de atendimento na rede de saúde mental de Fortaleza (CE). Muitas voltavam para casa de mãos abanando porque as senhas do dia não são suficientes.

Outras buscavam por medicamentos que há meses estavam em falta, como o antipsicótico quetiapina (200 mg). Cada caixa do remédio com 30 comprimidos custa R$ 340, e há pacientes que, sem condições de comprá-los, interrompem o tratamento.

No Distrito Federal, neste ano houve falta dos antidepressivos Citalopram (20 mg) e Mirtazapina (30 mg). A sertralina estava em falta em Camburiu (SC) e Campinas (SP). E por aí vai.

A demora na marcação de consultas é outra reclamação frequente em todo o país. Em um dos Caps de Fortaleza, 2.176 pacientes, já cadastrados, aguardavam uma ligação da unidade para marcar a consulta com psiquiatra, sem ter ideia quando isso aconteceria. Sem falar da falta de leitos psiquiátricos, outro problemão que só agrava no SUS.

Ou seja, são importantes campanhas preventivas na saúde mental, que orientem as pessoas a buscar ajuda e a romper com tabus e preconceitos. Porém, mais importante ainda é garantir a elas o acesso a esse cuidado.

A alta demanda na saúde mental também atinge a rede privada. Em seis anos, triplicaram no país as internações psiquiátricas cobertas por planos de saúde em que o paciente é acolhido durante o dia e retorna para casa à noite, conforme revelou a Folha neste domingo (22).

Com o aumento das despesas, alguns planos estão se mexendo e criando programas para acompanhar esse paciente mais de perto, inclusive, sem limitar consultas psiquiátricas e sessões de terapia.

É certo que não há recursos e nem psiquiatras e psicólogos suficientes para dar conta do cenário assustador projetado para a saúde mental no Brasil e no mundo.

Também é verdade que há um excesso de medicalização desnecessária para situações em que caberiam outras abordagens. Sem contar os efeitos danosos que as drogas psicotrópicas podem causar, conforme já pontuou o médico dinamarquês Peter Gotzsche.

No lançamento da campanha contra a depressão, Mandetta disse que a doença mental será o principal agravo que levará pessoas às unidades de saúde em um futuro próximo.

Mas o que o Brasil está fazendo para enfrentar isso? Qual o modelo de saúde mental levando em conta entre outros fatores o envelhecimento populacional, as mudanças tecnológicas, o ritmo cada vez mais alucinante de trabalho?
Vários países estão testando soluções alternativas para lidar com o aumento dos casos da depressão e ansiedade frente à escassez de recursos. O treinamento de profissionais da atenção primária, como médicos de família e enfermeiros, combinado com iniciativas que envolvam a comunidade tem sido uma das estratégias.

Ano passado, no Cazaquistão, conversei com o psiquiatra Shekhar Saxena, professor do departamento de saúde global de Harvard e ex-diretor de saúde mental da OMS (Organização Mundial de Saúde), sobre o assunto.

Ele considera efetivos tratamentos psicológicos em grupos ou providos por meio de voluntários treinados na comunidade. Uma iniciativa que vem ganhando apoio internacional é o “friendship bench” (banco da amizade, numa tradução livre).

No Zimbábue, país onde há apenas dez psiquiatras para uma população de 13 milhões de pessoas, avós foram treinadas para ouvir e orientar pessoas com depressão e ansiedade. Um estudo publicado no Jama (Jornal da Associação Médica Americana) mostrou que aquelas que sentaram no banco e contaram seus problemas para as avós tiveram maior redução de sintomas da depressão e da ansiedade do que aqueles que não tiveram essa escuta.

Atualmente, a estratégia dos “bancos da amizade” está sendo usada no Malaui, em Zanzibar e até em Nova York, em bairros como Bronx e Harlem. A Organização Mundial da Saúde tem protocolos que mostram que intervenções psicológicas podem ser tão efetivas para depressão quanto os medicamentos.

Como bem lembrou Saxena, muito pode ser feito pelas doenças mentais fora dos hospitais e do receituário médico. Políticas sociais que aliviem a pobreza, diminuam a violência, previnam tragédias, eduquem as crianças, cuidem dos conflitos, também podem ser muito efetivas para prevenir esses transtornos.

Mas num país em que os governantes estão mais preocupados com quimera, como a imaginária “ideologia de gênero”, e cada vez mais distantes das evidências científicas parece não haver espaço para que o enfrentamento dos distúrbios mentais seja discutido com a abrangência e a multidisciplinariedade que ele merece.

Talvez vamos seguir assim: só lembrando da epidemia silenciosa de depressão e suicídios nas campanhas do setembro amarelo. Ou, com alguma sorte, no janeiro branco, mês em que organizações chamam atenção para o adoecimento emocional da humanidade.





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