O desafio econômico das doenças cardiovasculares para o futuro do SUS
29/09/2026

As doenças cardiovasculares deixaram de ser apenas um desafio clínico. Hoje, representam uma das maiores ameaças à sustentabilidade dos sistemas de saúde, especialmente em países como o Brasil, onde o envelhecimento da população, a alta prevalência de doenças crônicas e a crescente demanda por atendimento pressionam diariamente o Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), aproximadamente 400 mil brasileiros morrem anualmente em decorrência de doenças cardiovasculares, responsáveis por cerca de 28% de todas as mortes registradas no país. O dado mais preocupante, entretanto, é outro: cerca de 80% desses casos poderiam ser evitados por meio da prevenção, do diagnóstico precoce e do controle adequado dos fatores de risco, como hipertensão arterial, diabetes, obesidade, sedentarismo e tabagismo.

Mais do que um percentual, esses números podem revelar um caminho. Cada infarto evitado, cada acidente vascular cerebral prevenido e cada paciente diagnosticado precocemente representam não apenas vidas preservadas, mas também recursos que deixam de ser consumidos em procedimentos de alta complexidade, internações prolongadas e tratamentos permanentes.

Estima-se que as doenças cardiovasculares gerem um impacto econômico próximo de R$ 10 bilhões por ano no Brasil, considerando custos diretos com assistência médica e custos indiretos relacionados à perda de produtividade, afastamentos do trabalho e aposentadorias precoces. Apenas os procedimentos cardiovasculares realizados pelo SUS representam mais de R$ 1 bilhão anuais, sem incluir despesas com medicamentos, exames diagnósticos, consultas especializadas e reabilitação.

As projeções reforçam a urgência dessa discussão. Estudo publicado em 2026 na revista BMC Health Services Research estima que somente as doenças ateroscleróticas — como doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral isquêmico e doença arterial periférica — deverão gerar um impacto econômico de R$ 59,4 bilhões para a sociedade brasileira entre 2025 e 2029. Paralelamente, a expectativa é que o número de brasileiros vivendo com doenças cardiovasculares mais do que dobre até 2035, passando de 6,2 milhões para 13,6 milhões de pessoas.

Os avanços da medicina oferecem uma oportunidade sem precedentes. Novas terapias, inteligência artificial aplicada ao diagnóstico, exames de maior precisão, medicina personalizada e monitoramento remoto ampliaram significativamente nossa capacidade de identificar riscos e intervir precocemente. O desafio já não está apenas no desenvolvimento tecnológico, mas na ampliação do acesso a essas ferramentas e na incorporação da prevenção como política pública permanente.

Instituições como o Instituto do Coração (InCor) e a Fundação Zerbini desempenham um papel estratégico ao promover pesquisa, inovação, formação profissional e incorporação de tecnologias capazes de qualificar a assistência e gerar evidências que apoiem decisões mais eficientes na gestão da saúde. Investir em ciência, capacitação e inovação é também investir na racionalização dos recursos públicos e na construção de um sistema mais sustentável.

Mais do que ampliar a oferta de tratamentos, precisamos fortalecer uma cultura de prevenção. Controlar fatores de risco, estimular hábitos saudáveis, ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e garantir a adesão ao tratamento são medidas capazes de reduzir internações, diminuir a necessidade de procedimentos de alta complexidade e aliviar a pressão sobre hospitais que já operam próximos de sua capacidade.

O debate sobre doenças cardiovasculares precisa, portanto, ultrapassar os limites da assistência médica. Trata-se de uma agenda estratégica para o desenvolvimento do país. Em um cenário de recursos limitados e demanda crescente, investir em prevenção não é apenas uma escolha sanitária — é uma decisão de gestão, responsabilidade fiscal e compromisso com as próximas gerações.

O futuro da saúde brasileira dependerá menos da capacidade de tratar doenças e mais da nossa competência para evitá-las. Afinal, prevenir não apenas salva vidas. Também preserva recursos, fortalece o SUS e contribui para um sistema de saúde mais eficiente, resiliente e preparado para os desafios das próximas décadas.


*Carlos Alberto Pastore é Vice-Presidente da Fundação Zerbini.





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